D. Pedro II

D. Pedro II, Imperador do Brasil, um amante da ciência, da cultura e das artes

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No nascimento de D. Pedro II, tanto Portugal quanto as províncias do Norte e do Nordeste do país acabavam de reconhecer a independência do Brasil. Sua chegada foi aclamada e comemorada com fervor. Em 1831, ao abdicar do trono em favor do filho, D. Pedro I partiu, mas não abandonou o porto por alguns dias, permanecendo ancorado: só partiria depois de certificar-se de que o filho havia sido aceito e reconhecido pelo Brasil. Caso contrário, teria levado a criança consigo.

Apesar de ser sagitariano, signo que beneficia seus nativos, Pedro de Alcântara João Carlos Leonardo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael de Gonzaga e Bragança enfrentou muitas perdas ao longo da vida e principalmente na primeira infância. Com um ano perdeu a mãe, aos cinco com abdicação do pai ficou só no Brasil com três irmãs e aos sete perdeu uma delas. Com nove anos, D. Pedro I faleceu, deixando-o totalmente órfão: ele passou a ser criado por uma aia e por Frei Antonio de Arrábida, negro, antigo preceptor e confessor de seu pai.

D. Pedro I elegeu José Bonifácio como tutor do menino, mas dois anos depois o Ministério da Justiça tirou-o do cargo, sob a acusação de conspiração contra a regência. Bonifácio foi substituído por Manoel I. A. Souto Maior Pinto Coelho, futuro Marques de Itanhaém, militar aposentado que imprimiu demasiado rigor e disciplina ao cotidiano do pequeno imperador. Com a partida do pai, Pedro, o segundo, havia perdido também D. Amélia, a segunda mãe, que preenchera a lacuna deixada pela primeira mui amorosamente e a quem esteve ligado de forma estreita durante toda a vida, mantendo com ela correspondência assídua. Ele sempre a teve como uma verdadeira mãe e só foi reencontrá-la ao visitar Portugal em sua primeira viagem ao exterior em 1871.

D. Pedro II foi coroado aos 14 anos. Até lá, passou por intensos estudos e preparos para assumir o governo do império. Aprendeu escrita, aritmética, geografia, história, política, desenho, música e diversas línguas como francês, inglês, alemão, latim e grego, além de outros assuntos como historia da arte, literatura e grego, além de esgrima, dança e teatro.O menino sempre gostou de estudar e nunca esconderia sua paixão pelos livros.

Desde menino, Pedro II era introspectivo, sério e triste. Sua voz era fina e aguda e sua saúde frágil devido à epilepsia que puxara do pai, com inúmeras crises na infância, o que aumentava a timidez, a insegurança e o recolhimento. Com o tempo tornou-se alto, forte e belo, sempre muito loiro, e adquiriu diabetes, doença que o consumiria ao longo da vida. Desde cedo cultivou a barba e um ar circunspecto, acreditando que ambos lhe conferiam expressão mais madura e responsável. Sua coroação foi antecipada tanto por vontade própria como pelo governo regencial e foi preciso emancipá-lo para que pudesse assumir o império aos quatorze anos, em julho  1840. As comemorações duraram uma semana,apesar do imperador ser avesso a festas e eventos sociais.

Casou-se aos dezoito anos com Teresa Cristina, descendente em segundo grau dos Bourbon, por não terem encontrado opção mais à sua altura. A princesa era irmã de Fernando II da Sicília, mas não agradou ao imperador, que se considerou enganado ao encarar a feiúra de sua pretendente. Mas o casal acabou se entendendo e convivendo por mais de quarenta anos. Tiveram quatro filhos, dois homens e duas mulheres, mas só as meninas sobreviveram, o que causou enorme desgosto ao imperador que sempre lamentou a perda dos filhos.

A residência oficial da família imperial era o Paço de São Cristovão, na Quinta da Boa Vista, próximo ao centro do Rio de Janeiro. No verão, a família subia para o palácio de Petrópolis, cidade inaugurada nas terras compradas por seu pai logo antes da abdicação, onde o imperador incentivou a imigração estrangeira e atraiu a Corte para o local que levaria o seu nome.

Quanto à vida íntima, D. Pedro II era muito discreto e só teve um grande amor em sua vida, a Condessa de Barral, tutora de suas filhas, que se encarregou da educação das meninas Isabel e Leopoldina por longos anos, aulas às quais o imperador comparecia com frequência. A relação veio à tona, mas Dom Pedro II ignorou os comentários e o caso seguiu adiante, só cessando após a morte da condessa, meses antes de sua própria. Por ocasião de suas viagens à Europa, enquanto a imperatriz fazia tratamentos de saúde, o casal viajava só, conforme podemos verificar na correspondência mantida por eles e guardada pelo imperador por toda a vida. Aliás, o imperador sempre manteve um diário onde narra toda a sua trajetória, em mais de cinco mil páginas contendo suas ideias, experiência, moral e sabedoria, fruto da consciência de ser uma figura pública.

D. Pedro II reinou por 49 anos em que a estabilidade política foi quase uma constante, salvo nas diferenças com a Inglaterra e no período da Guerra do Paraguai, no final dos anos 60. Nos primeiros anos de seu reinado, o grupo palaciano o influenciava, mas logo o jovem imperador assumiu as rédeas do seu governo e soube se conservar no comando, não só usando o Poder Moderador que lhe era conferido pela Constituição, como sabendo alternar os dois partidos – conservador e liberal -, no poder. Com o tempo, suas fraquezas desapareceram, seus valores e caráter vieram à tona. Ele era imparcial e sensato, ao mesmo tempo quededicado, cortês e paciente. Era um trabalhador incansável e na medida em que foiassumindo sua autoridade, suas habilidades sociais e dedicação ao governo, contribuíram muito para sua imagem pública. No final da década de 1840, seu governo já gozava de serena estabilidade e o imperador havia se tornado um monarca ativo, querido e respeitado pelo povo.

Suas crenças políticas apoiavam a necessidade de Constituição, o futuro republicano do país, o direito aos registros civis como nascimento, casamento e morte, a liberdade religiosa e liberdade de imprensa. Mantinha portas abertas a qualquer cidadão, mas limitava os horários de recepção a diplomatas e estrangeiros. Apoiava sinceramente a causa abolicionista e conduziu o lento processo que culminaria na assinatura da Lei Áurea em 1888: a escravidão é uma maldição sobre qualquer nação, mas ela haverá de desaparecer entre nós, dizia ele.

Na década de 1850, a economia brasileira crescia incentivada pelo cultivo do café, o que garantia prosperidade, estabilidade e apoio político ao seu reinado. Era época das grandes fazendas no Vale do Paraíba, grandes fortunas e damas circulando em salões e festas luxuosas: a sociedade consumia artistas franceses, músicos austríacos, preceptoras alemãs, modistas e comerciantes europeus que buscavam vender seus serviços aos nobres e ricos brasileiros. Com a expansão da lavoura, a diminuição da mão de obra escrava e a proibição da entrada de escravos no país após 1850, o Brasil intensificou o incentivo à imigração estrangeira, bastante defendida por ele. Após 1887, muitos imigrantes, na maioria camponeses e artesãos, empobrecidos pela crise causada pela industrialização na Europa, começaram a chegar de toda parte, o que contribuiria para modificar a língua, os costumes e a cultura do país, formando o mosaico que hoje compõe nossa brasilidade.

D. Pedro II era um homem culto e instruído, grande defensor da educação e da cultura como bases para o crescimento de um país, estando sempre em contato com artistas, escritores, inventores, pesquisadores, procurando introduzir no Brasil o que havia de mais moderno e inovador na época. Seus interesses versavam da antropologia, geografia, geologia, química e medicina, até o direito, estudos religiosos, filosofia e artes. Era também grande incentivador do desenvolvimento da ciência e da tecnologia e no final de seu reinado, o país tinha quase dez mil quilômetros de malha ferroviária interligando norte e sul, rede telegráfica por todo o país e telefone. Sua paixão por linguística o levou a estudar novas línguas sempre: ele era capaz de falar e escrever em latim, francês, alemão, inglês, italiano, espanhol, grego, árabe, hebraico, sânscrito, chinês, provençal e tupi. Foi o primeiro brasileiro a adquirir uma câmera fotográfica em 1840, a montar um laboratório fotográfico, outro de química e física e, a construir um observatório astronômico no Paço Imperial.

Sua erudição surpreendeu a muitos e D. Pedro II gozava do respeito e admiração de estudiosos como Charles Darwin, Victor Hugo e Friedrich Nietzsche. Trocava cartas com inúmeros cientistas, filósofos, intelectuais e artistas, dos quaismuitos se tornaram seus amigos:Richard Wagner, Louis Pasteur, Alexander Graham Bell, Louis Agassiz, John GreenleafWhittier, Michel EugèneChevreul, Henry W. Longfellow, Alessandro Manzoni, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco. Foi um grande incentivador das artes, patrono do IHGB (Instituto Historico e Geográfico Brasileiro), da AIBA (Academia Imperial de Belas Artes) e do Arquivo Imperial, estimulando sempre o desenvolvimento de jovens talentos. Muitas vezes concedia pensões e bolsas de estudo do seu próprio bolso para que jovens que se destacavam em algum setor pudessem se aprimorar no exterior, como foi o caso de Pedro Américo, Almeida Junior, Carlos Gomes e do primeiro engenheiro aeronáutico, Julio Cesar Ribeiro Gomes.

O imperador foi quem projetou a imagem do país no exterior através de suas relações e de sua atuação pessoal e política. Mas só foi empreender viagens internacionais na década de 1870. Antes disso, fez questão de conhecer o interior do território brasileiro e sua diversidade étnica, natural e regional.  A primeira que realizou foi em 1871 para a Europa. Em outras viagens voltou à Europa e visitou também o Egito, o Império Otomano e a Palestina. Em 1876, inaugurou a Exposição do centenário da Independência dos EUA, na Filadélfia.

Na última década de seu reinado, já muito afetado pela diabetes, o imperador revela em seus diários estar cansado, se sentir pessimista e deprimido, descrente da continuidade da monarquia. É que seus contemporâneos políticos da década de 40 já tinham se retirado do cenário e D. Pedro II foi perdendo o apoio das principais instituições do país. Com a Igreja, se indispôs ao prender dois bispos que desafiaram a legislação brasileira quanto à tolerância da maçonaria. O exército, mais fortalecido depois da Guerra do Paraguai, passou a pleitear mais representatividade sociopolítica. Perdeu também o apoio dos intelectuais que defendiam o republicanismo e o viam como o ícone da monarquia e, por fim, dos proprietários de terra que se sentiam traídos por defender o abolicionismo.

O imperador simpatizava com o regime republicano, mas acreditava que a monarquia era uma etapa antes dele. Ao saber da Proclamação da República, concordou em embarcar às pressas para a Europa, a fim de coibir qualquer tentativa de guerra civil. Recusou a ajuda oferecida pelo novo governo e viveu de forma modesta como tradutor de línguas estrangeiras nos últimos anos de sua vida. Após breve período em Portugal, tão logo sua esposa tenha falecido, mudou-se para Paris e lá veio a falecer dois anos depois, aos 66 anos. Foi enterrado com honras de chefe de estado e com um punhado de terra do Brasil, para que descansasse em solo brasileiro. É que ao vasculharem seu quarto no hotel em Paris, encontraram uma caixa com terra brasileira que ele mesmo havia guardado para o caso de não ser enterrado no Brasil. Seu funeral foi acompanhado por milhares de pessoas.

O imperador, que tanto se empenhou pela nossa história e cultura, doou ao país todos os documentos que havia herdado do reinado de seu pai, todos os bilhetes, documentos, cartas e despachos de seu governo, assim como seus diários particulares para que as futuras gerações pudessem estudar a história do país durante o período. Doou ainda sua coleção particular de fotografias para a Biblioteca Nacional e deixou para o IHGB a obra reunida por Spix e Martius que havia comprado pessoalmente. Grande parte desse material está arquivada no acervo do Museu Imperial em Petrópolis, ao lado da catedral onde jazem seus restos mortais, repatriados em 1921.

 

Editado a partir do livro “A contente mãe gentil rumo ao bicentenário” – A História do Brasil vista pela Astrologia, de Rui S. S. Barros e Ciça Bueno, 2013.

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